"Que esta publicação seja um passo adiante no caminho de formar uma vanguarda revolucionária neste país"
Trotsky viveu seus últimos quatro anos no México, como exilado político, até ser assassinado por um comando destinado exclusivamente para esse fim por Stalin, chefe da camarilha burocrática que usurpou o poder soviético. A circunstancia lhe permitiu observar diretamente a realidade latino-americana, e escrever uma série de análises e textos, destinados a esclarecer teoricamente e fixar a posição política da IV Internacional, diante de uma série de acontecimentos e processos que tiveram importancia decisiva para a história contemporánea de nosso continente. Em um período de crise mundial, e de marcha para uma segunda conflagração bélica internacional, a pressão das metrópoles imperialistas se fez premente sobre América Latina. Trotsky analisou as medidas nacionalistas levadas adiante pelo México, a emergencia do APRA peruano, a posição a ser adotada em caso de conflito entre o imperialismo e uma semi-colonia latino-americana (em específica referencia ao Brasil), o desenvolvimento do movimento operário, sua posição perante as medidas nacionalistas, a burocratização de seus sindicatos, o papel nefasto do stalinismo no continente, a tendencia bonapartista de todos os governos mais ou menos nacionalistas. Em um breve período de tempo, conseguiu esboçar uma visão abrangente dos problemas da luta nacional e da luta de classes na América Latina. Seus textos estão longe de constituir um todo sistematico, e não devem ser considerados uma Bìblia como, de resto, nenhum texto do marxismo revolucionário deve sé-lo. Eles levam, porém, uma marca distintiva que os diferencia de todo o pensamento socialista até entào existente em nossos países, baseada na teoria da revolução permanente. Esse é o motivo pelo qual constituem uma fonte insubstituível para qualquer anàlise marxista do presente, não apenas um documento histórico datado. Seu conhecimento apenas parcial no Brasil foi sem dúvida uma lacuna para a formação de uma vanguarda revolucionária neste país. Que sua publicação, hoje, seja um passo adiante nesse caminho."
Osvaldo Coggiola, Professor de História da USP
"Uma contribuição que fazia falta e de valor incálculavel para a transformação socialista da América Latina"
"Perseguido mundialmente pelas forças burocráticas que travaram e, por fim, desviaram a Revolução Russa na perspectiva da sua degeneração, Trotski, depois de ver fechadas as portas de todas as chamadas “democracias ocidentais”, encontrou asilo político no México.
Eram os anos 30, mais exatamente janeiro de 1937 , quando Trotski e sua esposa Natalia Sedova aportaram em Tampico. Ficariam no México por três anos até o assassinato de Trotski a mando de Stalin em agosto de 1940. Trotski, desterrado na América Latina, prosseguiu sua tarefa política e histórica de organização da Quarta Internacional e elaboração de textos que constituem a ponte com o conjunto do marxismo clássico, revolucionário, atualizado para o nosso tempo. Também escreveu sobre a América Latina e seus processos políticos. Neste sentido foi o marxista clássico que mais teve oportunidade de aportar e efetivamente o fez, para a questão da revolução socialista na nossa região. São precisamente esses textos, os escritos latino-americanos de Trotski que a Editora Iskra finalmente traz para a língua portuguesa em uma apurada edição – a mais completa em português – que representa um marco histórico editorial para todos os que queiram estudar a América Latina dentro da perspectiva marxista revolucionária tal como a entendia o fundador da Quarta Internacional, do Exército Vermelho e um dos dois grandes líderes da Revolução Russa. Nesses escritos – que de passagem mencionam o processo de Getúlio Vargas e vários outros daquela época – Trotski irá desenvolver elementos da teoria da revolução permanente para o caso particular de países da América Latina como, por exemplo, o México com o nacionalismo cardenista. A combinação das tarefas socialistas com as democráticas (ou democrático-burguesas) da burguesia mais retardatária serão objeto da aguda análise de Trotski e, destas suas considerações surgirão conceitos e noções dinâmicas como a do bonapartismo que são atuais, ou de enorme utilidade no entendimento de processos como o chavismo hoje e o peronismo logo após a II Guerra. Em especial tem a mais viva importância as considerações teóricas de Trotski sobre o movimento sindical em países de burguesia débil como na América Latina. Ele mostra que se trata de uma classe dominante que, por sua fraqueza frente ao imperialismo, necessita buscar uma base social para pressionar à grande burguesia, ao grande capital externo – e seu Estado imperialista - em defesa dos seus interesses de burguesia semi-colonial mas que, ao mesmo tempo, por conta da sua debilidade social e econômica também necessita de forma crítica, crucial, disciplinar ao movimento operário local. Ele mostra como na era imperialista o movimento sindical vai sendo substituído por uma burocracia a serviço do capital. Essa débil burguesia local oscila entre a repressão impiedosa contra a classe operária (caso do Estado Novo de Getúlio) e a busca de cooptação, estatização e disciplinamento do proletariado (caso do Estado chamado populista do mesmo Getúlio ou de Perón).
Os escritos de Trotski tomando como foco a América Latina aprofundam estas e outras questões. E por isso mesmo são de suma importância para todos aqueles que pretendam levar seriamente adiante qualquer estratégia revolucionária em países como o nosso, diante de um movimento sindical (CUT etc) fundamentalmente cooptado e encampado pelo governo do grande capital para a política sindical-reformista. Seus textos são atuais, respeitados os elementos de mudança de situação, de correlações de forças, de desenvolvimento das burguesias coloniais e semi-coloniais, as quais, por mais modernização que tenham introduzido nas formações econômicas, continuam impotentes na solução de seus próprios desafios ou missão como classe (um forte mercado interno, independência nacional, reforma agrária etc). Sua crescente incapacidade para resolver os problemas das massas e sua patente vassalagem frente aos interesses imperialistas são o atestado vivo da atualidade da revolução que, dirigida pela classe trabalhadora, resolva questões inacessíveis para a elite burguesa e pró-imperialista local. Todas essas contradições de cada um desses países da América Latina se agravaram, as sociedades locais estão mais dilaceradas pela desigualdade e concentração de renda, mais travadas em relação ao seu desenvolvimento social e é também por essa razão que os textos do velho Trotski são destilam o frescor de ferramentas – uma vez bem contextualizadas – para a ação política e programática transformadora hoje. Constituem o elo do marxismo vivo para a América Latina, tão cuidadosamente e escancaradamente ocultado pelas faculdades de “ciências sociais”, tão deixado de lado pelo reformismo, pelos neo-stalinistas, pelos populistas e todo tipo de corrente de pensamento que termina – também por essa via – revelando sua cumplicidade com a manutenção da ordem. Estes Escritos vão na contra-mão dessa tendência, candentemente escritos em uma encruzilhada histórica onde nazismo, crise econômica capitalista (Grande Depressão) e o nacionalismo de Cárdenas no México se cruzavam com os preparativos para a grande carnificina (II Guerra Mundial) e com os processos de Moscou, estes constituindo um marco de franca degeneração contra-revolucionária da primeira revolução proletária. Ao todo são mais de trinta textos, divididos em várias seções onde encontramos 16 artigos, cartas e entrevistas de Trotski, recolhidos dos Writings (do SWP norte-americano, saídos nos Escritos da E. Pluma) e das Oeuvres de Pierre Broué, mais três textos sobre a Quarta Internacional na América Latina, que incluem teses dos trotskistas brasileiros dos anos 30 sobre o Brasil, mais doze textos da revista publicada por Trotski chamada Clave (e que nucleava elaborações dos trotskistas para a América Latina), muitos deles inéditos em português, além de outra seção com textos de Julio Mella e Carlos Mariatégui seguidos de um artigo de abordagem crítica destes importantes autores e suas teses para a América Latina.
A apresentação inicial ao tema Trotski no México, de autoria do trotskista mexicano Pablo Opinari é um verdadeiro painel explicativo sobre as forças políticas que se cruzaram naquele país durante a estadia de Trotski, das polêmicas que se travaram, das iniciativas de Trotski e dos Partido Comunista mexicano (este já stalinizado e levando adiante seu papel de agente da burguesia no movimento operário). O livro, com suas mais de trezentas páginas traz também um Prefácio para a edição argentina (do Centro de Estudos e Pesquisas Leon Trotski) de autoria de Christian Castillo que também constitui uma profunda análise da importância política e teórica desses documentos publicados nos Escritos. Enfim, de conjunto, uma contribuição que fazia falta e de valor incalculável como ferramenta para a compreensão e a transformação revolucionária socialista da América Latina.
Gilson Dantas, Editor da revista Contra a Corrente e Doutor em Sociologia pela UnB.
"É uma enorme contribuição para a teoria e a prática marxista"
O lançamento dos Escritos latino-americanos, de Trotsky, representa uma enorme contribuição para a teoria e a prática marxista. Isso porque, entre outras razões, o volume preenche uma lacuna entre os pesquisadores da própria América Latina, que agora têm à disposição uma coletânea de textos voltados inteiramente para uma tentativa de particularização dos países que estão sob a dominação direta do imperialismo estadunidense. E, como marxista dotado de enorme erudição, capacidade de trabalho e disposição para lutar contra o stalinismo também fora da União Soviética, Trotsky soube conciliar o estudo da economia, da história e das sociedades latino-americanas com as tarefas da militância política.
Trotsky elaborou uma rica análise do modus operandi do imperialismo na América Latina. Em “A política de Roosevelt na América Latina” (escrito em setembro de 1938), analisou a questão e todos os seus desdobramentos possíveis: os conflitos inter-imperialistas (entre EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Japão etc.), os conflitos entre os países imperialistas e os países dependentes e coloniais, entre os próprios países dependentes e também a luta de classes no interior de cada uma dessas formações sociais. E, como o imperialismo não é como um raio que cai de repente num dia de céu azul, Trotsky o analisou como um processo de longa gestação, com profundas e sólidas raízes históricas e estruturais: desde o começo do século XIX, com a Doutrina Monroe (proclamada em 1823), passando por diversas afirmações de força, e sempre praticando a “diplomacia da canhoneira”, o imperialismo estadunidense acentuava cada vez mais as contradições da marcha da acumulação em escala ampliada, o parasitismo, a tendência ao militarismo e à guerra mas também as possibilidades de sua própria superação.
Pouco antes, em junho de 1938, Trotsky escrevia “O México e o imperialismo britânico”, que assinala as contradições entre duas potências imperialistas: EUA e Grã-Bretanha, esta última com investimentos no México que foram ameaçados pela nacionalização do petróleo. Trotsky comentou: “A campanha nacional que os círculos imperialistas estão realizando contra a expropriação das empresas petroleiras mexicanas, feita pelo governo, se distingue por possuir todos os traços das orgias propagandísticas do imperialismo; combina a falta de vergonha, a enganação e a especulação da ignorância com a certeza de sua própria impunidade”. O boicote britânico ao petróleo mexicano, neste caso, entrava em contradição com a Doutrina Monroe, e até mesmo com questões de segurança militar da Grã-Bretanha, que precisava do petróleo para fazer funcionar seu gigantesco complexo militar, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial.
Trotsky fez uma análise dialética do imperialismo, analisando com rigor teórico todas as suas causas e conseqüências, além de fazer prognósticos e analisar as perspectivas para o movimento operário latino-americano. Trata-se de análises extremamente sofisticadas, ainda mais se levarmos em consideração os “estudos” sobre a América Latina feitos pela III Internacional a partir de Moscou, sem qualquer fundamentação empírica e a partir de fórmulas apriorísticas. Trotsky, de maneira diferente, afirmou que:
Em política, o mais importante e, na minha opinião, o mais difícil é definir, por um lado, as leis gerais que determinam a luta à morte que ocorre em todos os países do mundo moderno e, por outro, descobrir a combinação especial destas leis para cada país. Toda a humanidade atualmente, desde os operários britânicos aos nômades etíopes, vive atada ao jugo do imperialismo. Não se deve esquecê-lo nem um único minuto. Mas isto não significa que o imperialismo se manifesta da mesma maneira em todos os países. Alguns países são condutores do imperialismo, outros são suas vítimas. Esta é a linha divisória fundamental dos Estados e nações modernas. A partir dessa perspectiva, e somente a partir dela, é preciso considerar o problema complexo do fascismo e da democracia (“Combater o imperialismo para combater o fascismo”).
O exílio no México representou uma experiência fecunda, que permitiu analisar in loco as contradições geradas pelo modo de produção capitalista, na periferia do sistema. A teoria do desenvolvimento desigual e combinado (formulada originalmente para explicar as especificidades da Rússia), também serviu como importante instrumental teórico-analítico para outras situações históricas e sociais, e influenciaria gerações de historiadores, sociólogos e economistas, como por exemplo os assim chamados “teóricos da dependência”. Trotsky dizia que nos países ditos atrasados coexistem relações sociais atrasadas e modernas; os países atrasados não repetem as “etapas” dos mais desenvolvidos, podendo saltá-las ou combiná-las. Obviamente, a crítica ao etapismo da III Internacional implicava também uma crítica à estratégia e à tática revolucionárias nos países dependentes e coloniais. Trotsky dizia que a burguesia, nestes países, ainda era bastante débil, enquanto o proletariado poderia assumir o papel de vanguarda da transformação social. Como sabemos, entre os comunistas latino-americanos predominou a tese – que se mostrou um desastre completo – de que haveria uma burguesia “nacional”, supostamente progressiva, que estaria disposta a se aliar ao proletariado na luta contra o imperialismo e o “latifúndio feudal”. Trotsky se esforçou em demonstrar que a burguesia desses países não desempenharia um papel na luta pela democracia e contra o imperialismo.
Os Escritos latino-americanos de Trotsky ainda são pouco estudados, mesmo entre os intelectuais marxistas das universidades. Muito se discutiu a respeito de suas obras mais conhecidas e suas teses sobre os desdobramentos da revolução de 1917: sua crítica à teoria do “socialismo em um só país” de Stalin (que na prática, colocou a IC sob tutela de Moscou), seus apelos ao internacionalismo proletário, a crítica da burocracia soviética (vista por ele como uma degeneração ou “excrescência parasitária”), a caracterização da URSS como um “Estado operário deformado” (e não capitalismo de Estado), a teoria da revolução permanente etc. Mas as perspectivas da transição para o socialismo, nos países atrasados da América Latina, são muito diferentes, como Trotsky vinha insistindo, e seria preciso lançar o olhar com maior atenção para suas particularidades. Mais ainda: tornava-se necessário, e até mesmo inadiável, entender a articulação entre o conjunto dos países mais atrasados e aqueles formam o núcleo duro, por assim dizer, do imperialismo em escala mundial. Como afirmou Michael Löwy: “O processo de transição ao socialismo pode portanto começar nos países ‘atrasados’ e periféricos, mas só poderá se completar – com o estabelecimento de uma verdadeira sociedade socialista – em escala mundial”.
A fundação da Quarta Internacional, em 1938, representou a grande iniciativa nesse sentido.
Pedro Fassoni Arruda, Depto. de Política da PUC/SP.
"É uma grande tarefa fazer chegar esta publicação a muitos homens e mulheres explorados pelo capitalismo"
A burguesia se utiliza de distintas formas para dividir a classe trabalhadora. Uma das formas menos notadas, e por isso menos contestadas, é a impossibilidade das novas gerações de homens e mulheres trabalhadoras conhecerem os erros e acertos das antigas gerações operárias de seu país e de seu continente. Uma forma potente de dividir a classe pois mantém oculta a história de luta, experiência e organização dos setores mais avançados da classe trabalhadora continental, obrigando as novas gerações a ‘começar do zero’. Por isso, a publicação dos Escritos Latino-Americanos de Leon Trotsky pelas Edições ISKRA tem uma importância fundamental, e justo num momento em que vemos novas convulsões sociais na América Latina, se faz ainda mais necessária. Leon Trotsky, quando exilado no México de Cárdenas, desenvolve de forma apaixonada toda a experiência teórica e prática à luz dos ensinamentos da Revolução Russa demonstrando a necessidade de aplicar os conceitos da Teoria da Revolução Permanente nos países subjugados pelo imperialismo norte-americano. Essa experiência não pode ficar restrita às bibliotecas e aos círculos intelectuais das universidades, e é justamente por isso que estamos construindo uma ‘editora militante’. É uma grande tarefa, então, fazer chegar essa experiência e reflexão viva da realidade a muitos homens e mulheres latino-americanos que permanecem enclausurados por este sistema capitalista, pois, como dizia Trotsky ‘o proletariado deve entrar firmemente no cenário histórico para tomar em suas mãos o destino da América Latina e assegurar o seu futuro’.
Diana Assunção, diretora da Coleção Mulher das Edições ISKRA e organizadora da edição brasileira do livro Lutadoras. Histórias de mulheres que fizeram história